Quando se investe numa empresa, será que os resultados financeiros têm de ser a única coisa que importa? Para alguns investidores, a resposta é NÃO. Podem também querer saber como a empresa trata os seus colaboradores, qual o impacto que tem no ambiente, se a sua gestão é transparente ou se as suas práticas empresariais são compatíveis com os seus valores pessoais.
É a isto que chamamos ESG.
ESG significa Ambiental (Environmental), Social (Social) e Governação (Governance): três grupos de fatores que podem ser utilizados para avaliar empresas e investimentos para além dos indicadores financeiros tradicionais. Estes fatores podem ajudar os investidores a identificar riscos adicionais, comparar empresas e decidir quais as empresas ou setores que pretendem — ou não — incluir nas suas carteiras.
É importante salientar que o ESG não estabelece uma definição universal do que é “ético”. Diferentes investidores podem ter prioridades e valores distintos. Em vez disso, o ESG oferece uma forma estruturada de analisar questões que, de outra forma, poderiam ser difíceis de integrar numa decisão de investimento.
Do investimento ético ao ESG
A ideia de considerar valores nas decisões de investimento é anterior ao próprio termo ESG. O investimento socialmente responsável (ISR), ou SRI (Socially Responsible Investing), ganhou destaque nas décadas de 1960 e 1970. Um dos exemplos mais marcantes foi a campanha contra o apartheid na África do Sul. Durante as décadas de 1970 e 1980, alguns investidores e instituições procuraram desinvestir em empresas com ligações ao regime do apartheid.
Com o passar do tempo, esta abordagem evoluiu da simples exclusão de determinadas empresas ou setores para a análise de um conjunto mais abrangente de fatores ambientais, sociais e de governação. O termo ESG — Environmental, Social and Governance — consolidou-se no mundo financeiro no início dos anos 2000, nomeadamente através da iniciativa Who Cares Wins, lançada em 2004.
A questão fundamental subjacente, no entanto, continua a ser familiar: os investidores devem considerar a forma como uma empresa opera e não apenas quanto dinheiro gera?
Os acontecimentos recentes demonstram como estas considerações podem influenciar a perceção em relação às empresas. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, as empresas enfrentaram pressão por parte de investidores, clientes e do público relativamente à decisão de continuar ou não a operar na Rússia. De acordo com uma investigação acompanhada pela Yale School of Management, mais de 1.000 empresas anunciaram publicamente que estavam a reduzir as suas operações na Rússia para além do mínimo exigido pelas sanções.
As questões ambientais também ganharam cada vez mais visibilidade, desde a pegada de carbono associada à produção e à utilização de energias renováveis, até às embalagens e à sustentabilidade das cadeias de abastecimento.
O ESG, como referido acima, procura organizar questões como estas em três grandes categorias.
E — Ambiental
A componente Ambiental do ESG diz respeito ao impacto de uma empresa no ambiente natural e aos riscos ambientais a que está exposta. Os investidores podem considerar as emissões de gases com efeito de estufa, o consumo de energia e de água, os resíduos, a poluição ou o impacto das atividades de uma empresa nos ecossistemas.
Por exemplo, um fabricante pode reduzir as suas emissões através da melhoria dos processos de produção, da transição para energias renováveis ou do investimento em tecnologias com menores emissões. Outra empresa pode reformular os seus produtos ou embalagens para reduzir os resíduos e o consumo de matérias-primas.
Para um investidor, isto pode ajudar a responder a questões como:
Até que ponto a empresa está exposta a riscos ambientais ou relacionados com o clima, e o que está a fazer para os gerir?
S — Social
O pilar Social analisa a forma como uma empresa se relaciona com as pessoas, incluindo os seus colaboradores, clientes, fornecedores e comunidades locais. Isto pode incluir as condições de trabalho, a saúde e segurança dos colaboradores, os direitos humanos, a diversidade, as normas laborais nas cadeias de abastecimento, a proteção de dados e a segurança dos produtos.
Os investidores podem analisar se uma empresa proporciona condições de trabalho seguras, respeita os direitos dos colaboradores ou dispõe de sistemas para prevenir o trabalho forçado ou infantil na sua cadeia de abastecimento. Podem também avaliar a forma como trata os clientes e protege os seus dados pessoais.
G — Governação
O pilar da Governação diz respeito à forma como uma empresa é gerida e controlada. Pode incluir a independência do conselho de administração, a remuneração dos executivos, os direitos dos acionistas, as práticas contabilísticas, a ética empresarial, as políticas de combate à corrupção, os conflitos de interesses e a transparência.
Uma contabilidade transparente, uma supervisão independente e regras claras para evitar conflitos de interesses podem reduzir determinados riscos. Por outro lado, uma governação deficiente pode aumentar a probabilidade de escândalos, fraude, problemas regulatórios ou decisões que favoreçam a administração em detrimento dos acionistas.
Como podem os investidores utilizar o ESG?
O ESG não tem necessariamente de substituir a análise financeira tradicional. Em vez disso, pode fornecer aos investidores uma camada adicional de informação. Ao analisar uma empresa, um investidor pode avaliar o crescimento das receitas, a rentabilidade, a dívida e a avaliação da empresa e, de seguida, analisar os fatores ESG que podem afetar as suas perspetivas a longo prazo.
Por exemplo, níveis elevados de emissões podem gerar custos adicionais caso a regulamentação ambiental se torne mais rigorosa. Condições de trabalho deficientes podem levar a uma maior rotatividade de colaboradores, greves ou danos reputacionais. Uma governação empresarial deficiente pode aumentar o risco de fraude ou de uma má alocação de capital.
O ESG também pode ser utilizado como ferramenta de seleção. Um investidor pode decidir excluir determinados setores ou empresas que não cumpram critérios específicos.
Outra abordagem é a seleção “best-in-class”, na qual os investidores procuram empresas com melhores indicadores ESG em comparação com outras empresas do mesmo setor.
A análise ESG pode, assim, cumprir vários objetivos:
- identificar riscos adicionais;
- comparar empresas;
- selecionar ou excluir investimentos;
- ou construir carteiras de acordo com critérios específicos de sustentabilidade.
Classificações ESG: é possível medir a responsabilidade?
Então, como é que os investidores medem efetivamente o ESG? Uma das ferramentas utilizadas é a classificação ESG.
Provedores especializados analisam dados das empresas e atribuem-lhes pontuações ou classificações ESG. No entanto, não existe um sistema universal único. Os diferentes provedores utilizam metodologias, indicadores e ponderações distintas, pelo que a mesma empresa pode obter avaliações diferentes. Por isso, uma classificação ESG deve ser encarada como uma ferramenta de análise e não como uma avaliação definitiva sobre se uma empresa é “boa” ou “má”.
Alguns dos sistemas mais conhecidos incluem:
- Classificações ESG da MSCI: A MSCI classifica as empresas de AAA a CCC, avaliando a eficácia com que estas gerem os riscos e oportunidades de sustentabilidade financeiramente relevantes, em comparação com as suas congéneres do setor. A MSCI indica que abrange mais de 17 000 emitentes e cerca de 999 000 títulos em todo o mundo.
- Classificações de Risco ESG da Morningstar Sustainalytics: medem a exposição de uma empresa a riscos ESG significativos e a eficácia com que esses riscos são geridos. As empresas são agrupadas em cinco categorias de risco, desde «insignificante» até «grave». A Sustainalytics indica uma cobertura de mais de 16 000 empresas.
- Pontuação ESG da S&P Global: utiliza a Avaliação de Sustentabilidade Corporativa e outros dados para avaliar as empresas em temas ambientais, sociais e de governação. A S&P Global reporta uma cobertura de dados ESG de aproximadamente 13 000 empresas.
- CDP (Carbon Disclosure Project): centra-se principalmente na divulgação de informações ambientais, incluindo alterações climáticas, segurança hídrica e florestas. Em 2024, mais de 24 800 empresas divulgaram dados ambientais através do CDP.
ETFs e índices ESG: é possível investir de acordo com os seus valores?
Os investidores não têm necessariamente de selecionar individualmente as empresas nas quais pretendem investir. Existem também ETFs baseados em critérios ESG ou de sustentabilidade.
Os índices ESG são outra forma de aplicar estes critérios aos mercados financeiros: normalmente, selecionam, excluem ou ponderam empresas de acordo com regras específicas nas áreas ambiental, social e de governação.
Os ETFs podem, por sua vez, acompanhar estes índices, dando aos investidores exposição a uma carteira construída de acordo com esses critérios. Podem também estar focados em temas específicos relacionados com a sustentabilidade.
No entanto, um “ETF ESG” não significa que todas as empresas que o compõem correspondam à definição pessoal de cada investidor sobre o que é uma empresa ética. A composição da carteira depende da metodologia e dos critérios utilizados pelo fundo ou pelo índice que este acompanha. Por isso, os investidores devem olhar para além da designação ESG e analisar a metodologia do fundo, as exclusões, os ativos que compõem a carteira e o objetivo de investimento.
Os reguladores também responderam às preocupações relacionadas com possíveis alegações de sustentabilidade enganosas. De acordo com as orientações da ESMA introduzidas em 2024, os fundos que utilizem termos relacionados com ESG ou sustentabilidade na sua designação devem, em geral, ter pelo menos 80% dos seus investimentos alinhados com as características ambientais ou sociais ou com os objetivos de investimento sustentável associados à sua estratégia.
O investimento ESG atualmente
O investimento sustentável tornou-se uma parte significativa do mercado de investimento. De acordo com a Morningstar, os ativos dos fundos sustentáveis globais de capital aberto e ETFs ultrapassaram os 3,9 biliões de dólares no final de 2025.
No entanto, o crescimento não é garantido. Em 2025, os fundos sustentáveis globais registaram saídas líquidas de aproximadamente 84 mil milhões de dólares, depois de terem registado entradas de 38 mil milhões de dólares em 2024. Foi o primeiro ano de resgates líquidos globais desde que a Morningstar começou a acompanhar este segmento, em 2018.
Quais são os riscos do investimento ESG?
A utilização de critérios ESG não elimina o risco de investimento. As estratégias orientadas para ESG também apresentam desafios próprios:
1. Ausência de um padrão ESG único
Não existe uma metodologia universal para as classificações ESG. Os diferentes provedores utilizam dados, critérios e ponderações distintos, o que significa que a mesma empresa pode receber classificações muito diferentes.
2. Greenwashing
As empresas ou produtos de investimento podem apresentar-se como mais sustentáveis do que realmente são. Uma designação ESG, “verde” ou “sustentável”, por si só, não indica exatamente o que um fundo detém ou quão rigorosos são os seus critérios.
3. Risco regulatório
A regulamentação relacionada com ESG continua a evoluir, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Novas definições, requisitos de divulgação de informação ou regras aplicáveis aos fundos podem afetar as empresas e os produtos de investimento.
4. Maior complexidade da análise
A avaliação de fatores ESG exige dados e análises adicionais. A informação também pode estar incompleta ou ser difícil de comparar entre empresas, tornando a análise de investimentos mais complexa.
5. Risco de concentração e diversificação
A exclusão de determinadas empresas ou setores inteiros com base em critérios ESG pode reduzir a diversificação ou aumentar a exposição a determinados setores.
6. As classificações ESG podem mudar
As classificações podem ser alteradas devido a novas informações, mudanças na legislação, controvérsias relacionadas com empresas ou alterações na metodologia utilizada por um provedor. Por isso, os investidores devem compreender não só a classificação de uma empresa, mas também o que esta mede e como é calculada.
7. O ESG não garante melhores rendimentos
Uma classificação ESG elevada não significa automaticamente que uma empresa seja um bom investimento. Os preços continuam a ser influenciados pelos resultados das empresas, avaliações, taxas de juro, condições económicas e muitos outros fatores. O ESG pode acrescentar informação à análise de um investimento, mas não elimina o risco de mercado nem garante retornos positivos.
Então, é possível investir de forma ética?
Pode, certamente, permitir que os investimentos estejam mais alinhados com os valores de cada investidor. O ESG oferece aos investidores ferramentas para colocar questões às quais, por si só, os rácios financeiros tradicionais podem não dar resposta: Qual é o impacto desta empresa no ambiente? Como trata as pessoas? Como é gerida? Que riscos relacionados com a sustentabilidade podem afetar a sua atividade no futuro?
As classificações ESG, os índices ESG e os ETFs focados em ESG tornaram mais fácil incorporar estas considerações nas decisões de investimento. No entanto, não existe uma classificação ESG universal que possa determinar, em nome de um investidor, se um investimento é ético.
Em última análise, o ESG deve ser entendido como um enquadramento adicional para a análise. Pode ajudar os investidores a olhar para além das demonstrações financeiras, identificar riscos que poderiam passar despercebidos e escolher investimentos que reflitam mais de perto as suas prioridades.
E talvez essa seja a ideia mais importante por detrás do investimento responsável: saber não só em que está a investir, mas também compreender como funcionam, na realidade, as empresas por detrás dos seus investimentos.
FAQ
O que é ESG?
ESG significa Ambiental (Environmental), Social (Social) e Governação (Governance). É um enquadramento utilizado para avaliar empresas e investimentos com base no impacto ambiental, na relação com colaboradores, clientes e comunidades ou nas práticas de governação empresarial. Os fatores ESG podem complementar a análise financeira tradicional, fornecendo informação adicional sobre potenciais riscos e oportunidades.
Como podem os investidores avaliar empresas utilizando critérios ESG?
Os investidores podem analisar diretamente os fatores ambientais, sociais e de governação ou utilizar classificações ESG fornecidas por organizações como a MSCI, a Morningstar Sustainalytics, a S&P Global e a CDP. Uma vez que os diferentes provedores utilizam metodologias distintas, a mesma empresa pode receber avaliações ESG diferentes. Por isso, as classificações devem ser encaradas como uma de várias ferramentas de análise.
Como é possível investir de acordo com critérios ESG?
Além de selecionarem empresas individualmente, os investidores podem utilizar ETFs que acompanham índices focados em ESG ou estratégias de sustentabilidade. Estes índices podem selecionar, excluir ou atribuir diferentes ponderações às empresas de acordo com critérios ESG específicos. Os investidores devem verificar sempre a metodologia, as exclusões e os ativos que compõem um determinado fundo, em vez de se basearem apenas na designação ESG.
Os investimentos ESG são seguros?
Os critérios ESG não tornam um investimento inerentemente mais seguro nem garantem retornos positivos. O investimento ESG envolve os riscos habituais associados aos mercados financeiros, bem como desafios específicos, como metodologias de classificação inconsistentes, greenwashing, alterações na regulamentação e uma potencial menor diversificação da carteira. Por isso, os investidores devem considerar tanto os riscos financeiros como os riscos relacionados com ESG antes de tomarem uma decisão de investimento.